domingo, 15 de abril de 2018

Quando eu me concentrei na dança do fogo e das plantas eu pensei...







As plantações dançam ao som do vento enquanto estou ouvindo stand by me na versão da Florence, e sentindo em mim um aconchego, uma sensação boa de cuidado, de estar amparada.
Vim com minha amiga Vidal visitar o pai dela, ontem foi tão legal, fizemos fogueira, caldo vegan, eles assaram defunto de boi mas não me incomodou. Percebo cada vez mais que meu incômodo com isso aumenta muito quando estou em volta de pessoas que me fazem ficar mal com minha escolha, como se minha luta não fosse nada.

O Pai dela foi muito amável em contar suas histórias, e eu lhe chamei de Pai jé, o Pajé da nossa tribo recém formada na minha imaginação, ele sendo o ancião, sábio e mais habilidoso em acender a fogueira, em manter o fogo aceso apesar da chuva que veio nos presentear com seu barulho e cheiro de terra molhada!

Não vou mentir que fique feliz de ver ela molhar o churrasco, mas eu não disse nada e nem parecia que havia diferenças entre nós, especialmente dessa minja escolha política.

Fui e sou respeitada aqui, minha amiga tem um cuidado especial com isso, e com ela eu fiquei cada vez mais tranquila com relação a ver pessoas se alimentando de seres que pra mim sofreram muito.

Quando chegamos aqui, vimos alguns bois magros e bezerros passeando, pastando e tranquilos.

Ainda que isso existisse em qualquer lugar do mundo eu ainda não  concordo mais com esse consumo. Por várias questões éticas que já falei sobre, mas eu consegui ter um respeito que me faltou por um tempo com essas pessoas que ainda vivenciam essa cultura.

Senti no meu coração que no fundo as pessoas também não concordam, e aqui lendo Sapiens eu consegui compreender melhor como que surgiu esse costume. Nós veganos estamos desobedecendo uma ordem que foi criada desde que surgiu o patriarcado, a posse e a domesticação das espécies mais dóceis.

Eu preciso enfatizar esse meu lado grato, pq por muitos anos a falta de acompanhamento psicológico e psiquiátrico me fez explodir de raiva e intolerância com pessoas que tinham valores diferentes dos meus!

Hoje vejo que comecei a tratar muito tarde, precisei daquele surto que volta e meia eu me lembro,  lendo sapiens, tranquila, analisando as coisas em mim, eu me pergunto: Porquê não fiz isso lá?

Porquê não tava em paz?
Porquê eu fiz tanta besteira?

Nem eu entendo, eu sei que não queria isso, não tive culpa, saí do meu controle, saí de mim...

Ainda que fosse a medicação errada e o estresse que eu estava envolvida, eu sei que o que explodiu em mim foi o meu lado completamente livre, uma euforia feliz disposta a morrer na diversão, ou de chorar e escandalizar e gritar sem me preocupar com o que dissessem...
O problema é que essa culpa chegou depois, e não foi pq ninguém me culpou, foi pq eu analisei tanto quanto agora, meus atos, minhas reações que não estavam nada sensatas.

Passei ainda 1 mês assim, sentindo muito ódio de todos que estavam lá, sem entender pq disseram tudo aquilo, depois perdoei todos e me culpei.

Eu sei racionalmente que não tive culpa, mas o medo de perder o controle me assombra.

Agora eu estou bem, me sentindo ótima, com energia e o tempo todo com muito medo de isso virar outra crise maníaca!

Vendo aqui a cana de açúcar que o Paijé plantou, as árvores frutíferas dos quintais vizinhos, eu sinto que deveria me dedicar mais a aprender com as árvores, nossas grandes anciãs.

Ainda que eu sinta os reflexos daquele surto é um constante aprendizado, do meu legado de loucura e de tudo que isso trouxe de transformação em minha vida.


Encerramos ontem a noite com um chá feito por uma gambiarra, pq o isqueiro tinha sumido e não havia um fósforo, o Paijé não aceitou isso e foi atrás de seus saberes lógicos... Duvido que qualquer universitário de engenharia mecatrônica ou técnico de eletricista tivesse essa idéia! Provavelmente iriam se limitar ao: "Vamos desistir e amanhã cedo compramos um isqueiro."

Lembrei do meu vô Araújo, ele faz todos os cálculos de cabeça, sempre fez, tem 84 anos, e raciocina melhor que qualquer um de nossa família, ele não teve estudo. Meu pai comprou o diploma do 2o grau pra conseguir emprego, é um dos caras mais inteligentes que conheço, só não mais que o pai dele, enquanto meu vô faz tudo de cabeça, meu pai usa calculadora científica.

Na real to sendo injusta em dizer que existe um ser mais inteligente, pq toda pessoa é dotada de um tipo de inteligência. Mas a época do meu avô fez com que ele desenvolvesse essas habilidades, e ele gosta, ele não aceitou computadorizar nada, enquanto que minha finada Avó Dilza, esposa dele, tinha uma inteligência absurda pra bordado, crochê, organizar uma casa e decoração.

Minha avó Zilda tem uma habilidade incrível de plantas e chás, capinar quintal, segura uma inchada melhor que muito macho!

Isso tudo é bom de lembrar, mas eu fico triste quando lembro de como a minha família teve que lidar com meu surto, especialmente como isso me feriu tanto.

Sim eles não sabem lidar, mas o julgamento que veio com isso foi muuuuito pior!

Muita gente se aproveitou disso pra apontar falhas em mim e nos meus pais, como se a vida deles fosse perfeita por ser como eles acreditam... vou parar de pensar isso pra não estragar meu passeio, simples e encantador!

Eu realmente desejo que todos sintam isso, paz, tranquilidade, simplicidade.


15 de Abril de 2018, numa manhã fria em Cristalina-Go.




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