quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Além da ferida






De repente eu voltei lá na memória mais antiga sobre a minha carência familiar, e lembrei que infelizmente fizeram questão de me rebaixar quando minha irmã nasceu. Ela nunca teve culpa de nada, eu queria que ela nascesse, sempre foi meu sonho ter uma irmãzinha pra brincar comigo, mas quando ela nasceu eu tive que deixar de ser criança sem poder ser mocinha. Ajudei a criá-la, e muitas vezes reivindiquei que tivesse os mesmos direitos que ela e meu irmão. Eu fui obrigada a ouvir que era feia e gorda, que tava cheia de espinhas, que era insuportável, que não parava quieta, que merecia surras, além das que eu já levava. Perdi minha coleção de tazos de animais em extinção, sobraram alguns que escondi da minha mãe. Fui proibida de ficar com qualquer animal, especialmente gatos, minha mãe ameaçou de jogar no rio, e meu irmão disse que tinha levado o último pro rio. Depois desmentiu mas eu já tinha criado aquela memória que até hoje não saiu da cabeça.

Tinha o mesmo castigo que meu irmão quando não ficava em tantas matérias quanto ele, ou apenas respondia minha mãe. Sempre respondi, o tratamento comigo sempre foi diferente, e a justificativa é que eu não obedecia. Lembro que um dos piores traumas não foi os abusos sexuais, nem ver minha mãe apanhando, foi de ter sido culpabilizada, sexualmente eu não podia me masturbar, se fosse pega isso era coisa de piranha. Meu primo e irmão podiam ver suas revistas, e ainda inventavam coisas pra eu apanhar, inventavam que eu estava me agarrando com meninos na escola, só pra eu ficar também de castigo, e apanhar. Um dia cheguei em casa com um adesivo que parecia piercing, no nariz, mas era mais um adereço, como se fosse uma maquiagem, e meu irmão foi na frente e não sei o que disse pq quando eu cheguei, ela me pegou pelos cabelos e me bateu muito. Fui proibida de pensar em colocar algo do tipo.

Isso foi só uma parte das coisas que fui obrigada a passar. Lembrei muito da hora em que meu pai quebrou meu fichário e eu perdi todas as matérias, tirei 0 em matemática, pq valia 3 pontos só dos exercícios, e eu tinha que apresentar na segunda, e isso foi no domingo. Ouvia meu pai falar que sabia com o que eu tava me metendo pq ele já tinha sido da minha idade. E eu só chorava, ficava com os olhos vermelhos de tanto chorar, ele e todos diziam que era maconha. EU NEM SAIA DE CASA.

Comecei a me recusar ir pra igreja, e apanhava. Meu Deusa, como eu apanhei! Na cabeça, na cara, em todas as partes. De chinelo, de cinto, cabelos puxados.

Era obrigada a fazer os trabalhos pelo meu irmão. O diretor da escola teve q proibir ele d estudar comigo.

No dia da premiação de melhor atriz da escola, ninguém estava comigo. No dia em que toquei em um festival de música, só foi a minha mãe pra dizer depois que agora eu ia trabalhar e tinha que deixar as aulas de lado. Eu não podia pegar no meu violão que era reclamava da "zoada". Meu pai nunca me apoiou na música, apesar de ter dado um jeito de me dar 500,00 pros meus 15 anos. Isso ele não fez pela minha irmã e nem meu irmão, e eu pude realizar o meu sonho. Infelizmente as coisas foram piorando a medida que eu fui amadurecendo, mas depois fui aprendendo a lidar e a sofrer mais até tomar veneno de rato aos 15 anos, ter bulimia, ter me cortado. Tudo foi abafado. Minha mãe disse que tentei me matar só pra falarem mal dela.

Essa parte, é a gritante dos meus 15 anos... Tiveram outras, como no natal de 2006, que eu meu pai saímos na porrada pq não aceitei de novo as ameaças dele, ele me enforcou, depois que eu disse tudo que precisava, defendendo minha mãe e meus irmãos. Minha mãe ao invés de me defender ela disse: Ta vendo a cobra que ela é, isso é cobra criada!
Eu tirei forças não sei de onde pra me defender, pra jogar ele do outro lado. Cada palavra minha deixava ele sem saber o que dizer, e a rua toda ouvia. Eu fiquei com vergonha de sair no outro dia, mas saí e cochichavam.

Depois desse dia de alguma maneira eu me anestesiei pra melhorar.

Ainda que depois disso tudo eu ainda tinha que surtar?
Hoje no consultório minha psicóloga me fez entender que o surto foi o limite. Que agora é divisor de águas, mas infelizmente eu só estou mais angustiada.

Dessensibilizar tudo isso vai ser muito trabalho, será se tenho chance de andar mais leve?

Eu já não chorei o bastante?
Essa dor da ferida, parece impossível de alguém entender, quando preciso de colo, de apoio, de compreensão. É nessas horas que me sinto ninguém, que não mereço ser amada, que é melhor me isolar mesmo, porque não tem quem entenda e ninguém é obrigado.

Perdoar não basta, isso ainda me afeta.

Queria sim olhar tudo e só me sentir feliz por eles serem felizes da maneira deles, assim como vejo muitas pessoas que já não fazem mais parte da minha vida.

Mas tudo ao meu redor que acontecesse me puxa de alguma maneira pro passado. Já não bastasse o tanto que vomitei na ayahuasca e tudo que aprendi. Talvez o surto foi uma chance pra gente como família fazer algo uns pelos outros. Mas não passamos nesse teste.

A diferença poderia ser feita agora, mas eu to cansada demais e não me faz bem esperar que eles façam o que eu pedi.

Eu fui clara, eu não sou de mentir e eles sabem que eu jamais mentiria a respeito disso. Me deserdei pq não vi outra maneira de dizer que quero paz e um tempo.

Me feriu mais ver minha irmã e seu complexo de mais nova narcisista em não tentar me ajudar, era minha bonequinha, sempre a defendi com unhas e dentes. Ainda a amo mas ela nunca quis me ajudar. Acha que o mundo é entorno da sua vida. Eu cobrei uma postura dela que ao invés de gastar com futilidades tivesse mais responsabilidade com os gatos dela, que castrasse, mas ela continuou preferindo suas tatuagens e piergcings. Ela que me bloqueou, ela me ignorou. Ela me magoou.

Além de tudo que sofri, abandono parental e de amigos. Abandonos e eu cansada de ser abandonada me isolei e agora temo ser abandonada de novo. Eu não aguento mais.

Ferida que dói, que machuca quando tento viver normalmente, pq ainda magoa, não sarou e nem sei se há uma cura, já que não posso desistir de vez.

(Ouvindo Audiolepsia - Lunes)



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